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O maior adversário é seu companheiro de equipe

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Um assunto recorrente – e por que não dizer, permanente – na Fórmula-1 é sobre a dupla de pilotos de uma equipe. E o título desta crônica carrega uma verdade absoluta, não apenas na F-1 como também em todas as categorias do automobilismo. Analisaremos as atuais duplas do grid, mas isso falaremos em seguida. Antes, uma breve viagem à F-1 dos anos 60 e 70. Na década de 60, a Lotus formou a melhor dupla de pilotos da época, com o escocês Jim Clark, o primeiro “Escocês Voador”, e o inglês Graham Hill, muito provavelmente, o último representante da “Fase Romântica da Fórmula-1”. Os dois britânicos ganharam dois títulos cada, e viriam outros se Clark não tivesse morrido em uma prova de Fórmula-2 no circuito de Hockenheim, na Alemanha, em 1968. Naqueles tempos, os pilotos da F-1 corriam também na F-2 para ganhar mais dinheiro.

Nos anos 70, as três principais equipes – Lotus, Tyrrell e Ferrari – tiveram célebres duplas, para o bem ou para o mal. Já campeão em 1972, Emerson Fittipaldi teve a companhia do sueco Ronnie Peterson no ano seguinte. E isso destruiu o ambiente na equipe. Amigos fora da pista, Emerson e Peterson passaram a brigar abertamente na temporada de 1973, tendo como desfecho duas consequências previsíveis: a perda do título para a Tyrrell e a saída do brasileiro para a McLaren em 1974, na qual ele ganharia seu segundo campeonato. Enquanto isso, a Tyrrell tinha a dupla perfeita, com o ótimo piloto francês François Cevert – apontado como o homem mais bonito do circo – servindo de escudeiro para Jackie Stewart, o segundo “Escocês Voador”. Já cansado da F-1 e sempre muito preocupado com a segurança, Stewart decidiu que a temporada de 1973 seria sua última, abrindo caminho para seu amigo Cevert.

Porém, o destino – e as péssimas condições de segurança dos carros e dos circuito daquele tempos – reservou algo muito diferente do desejo de Stewart. No treino de classificação do GP dos Estados Unidos, última prova do ano, com Stewart já tricampeão do mundo, Cevert se perdeu no “S” de alta velocidade do circuito de Watkins Glen, no Estado de Nova York, e passou entre as lâminas do guard-rail. Cervert teve a cabeça decepada, em um das batidas mais terríveis da história da F-1. Arrasado, Stewart nunca mais entrou em um carro de competição. Em 1974, a Ferrari contratou o suíço Clay Regazzoni e o até então novato austríaco Niki Lauda. O austríaco foi uma exigência feita por Regazzoni para Enzo Ferrari porque Lauda se mostrou um ótimo acertador de carro quando os dois dividiram equipe na BRM. Na pista, não houve briga entre os dois porque Lauda era muito melhor, tanto que o austríaco chegou ao seu primeiro – de três – título em 1975. Passando rapidamente pelas históricas brigas do canadense Gilles Villeneuve e do francês Didier Pironi na Ferrari, em 1982, de Nelson Piquet e o inglês Nigel Mansell na Williams, em 1986 e 1987, e a mais famosa de todas, de Ayrton Senna e o francês Alain Prost na McLaren, em 1988 e 1989, chegamos ao atual grid da F-1.

Primeiro, outra verdade incontestável: nenhuma boa convivência entre uma dupla de pilotos de uma equipe grande resiste quando ela começa a disputar vitórias ou lugar no pódio. No caso da turma do meio e do fundo do pelotão, a briga entre os dois pilotos é eterna, por migalhas. Assim, a dupla mais equilibrada de pilotos era a dos ingleses Lewis Hamilton e George Russell na Mercedes. O verbo está no passado porque Russell, de uma hora para outra e inexplicavelmente, decidiu desafiar a hierarquia do heptacampeão. A partir do GP do Japão deste ano, o jovem piloto inglês abriu briga direta contra Hamilton, se repetindo em Cingapura e no choque entre os dois na largada do GP do Catar, há uma semana, que acabou tirando Hamilton da prova.

Então, a condição de equilíbrio técnico passou para a dupla da McLaren, o inglês Lando Norris – apontado por muitos como o próximo inglês campeão na F-1 – e o australiano Oscar Piastri. Entretanto, e de novo, a McLaren voltaria a disputar as primeiras colocações das corridas, se aproximando da Red Bull do holandês Max Verstappen. Ainda com troca de sorrisos amistosos nos bastidores, Norris começou a “entrar em parafuso” vendo que seu companheiro de equipe estava sempre ao seu lado – ou na frente – no grid e nas provas e “tirou a máscara” de vez depois da vitória de Piastri na corrida Sprint do Catar. Norris desdenhou da conquista do companheiro e disse que o lugar teria sido dele não fosse uma lugar ruim na largada da mini corrida. No domingo, na prova principal, Piastri andou sempre na frente de Norris, que chegou inclusive a pedir a posição do australiano (segunda, atrás de Verstappen) pelo rádio, não atendido pela equipe.

Na Ferrari, o monegasco Charles Leclerc e o espanhol Carlos Sainz Jr. formam a dupla mais desequilibrada entre as equipes da frente. Desequilibrada em tudo! E é uma via de mão dupla: Leclerc e Sainz Jr. não merecem o carro e a Ferrari não merece os dois. Rapidíssimo em apenas uma volta nos treinos, Leclerc não entende como funcionam as várias fases de uma corrida. Enquanto isso, até o GP da Itália, Sainz Jr. não entendia de coisa alguma. Mas, como por encanto, o espanhol começou a se sair bem, marcando a pole position em Monza e em Cingapura e vencendo a prova noturna no circuito de Marina Bay, com direito a uma aula de esperteza, quando “rebocou” o carro de Norris – oferendo a possibilidade de o inglês usar o DRS – para escapar do ataque das Mercedes, muito mais rápidas no final da prova. Assim, por merecimento, o posto de primeiro piloto da Ferrari deveria ser, no momento, do espanhol.

Nas outras duas equipes da frente, a situação é a mesma por motivos diferentes. Se ficou complicado, explico. Embora já seja campeã de Construtores da temporada, a Red Bull não tem, na prática, uma dupla de pilotos. O mexicano Sergio Perez não é sombra do que Verstappen é. Além disso, por pura incompetência, o mexicano não consegue entender um carro que Verstappen veste como uma roupa. Então, na Red Bull, a máxima se desfaz, porque, decididamente, Perez não é o maior adversário de Verstappen. E a Aston Martin – feroz no começo da temporada e um gatinho atualmente – também participa do Mundial com apenas um piloto, o espanhol Fernando Alonso. Ao seu lado na garagem dos boxes tem um cara que não é um piloto de F-1. O canadense Lance Stroll só está na equipe porque seu pai, o bilionário Lawrence Stroll, é o dono do time. No entanto, a coisa tende a terminar para o canadense. Se os boatos de bastidores se confirmarem, o pai teria planos de se desfazer da equipe, relegando o filho pra qualquer categoria menos votada do automobilismo. Tomara!

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