Conversa a motor | Quando chega o fim da linha para um carro

Cecília França

“Tudo que é bom dura pouco”, diz o ditado. Nem tudo. Fosse assim, o Fusca não teria sido fabricado por mais de 70 anos (hehe). Quando se trata de carro (e da vida?), todos um dia hão de acabar. Aconteceu com mitos como o Fusca, o Opala e o Uno Mille. Mais recentemente com o Fiat Palio, e um dia vai acontecer com VW Gol.

Mas a imprensa especializada tem falado agora sobre o fim de carreira de outro Volkswagen, o Fox. Mesmo com méritos, o hatch parece estar “sobrando” na linha da montadora, afinal, não é um citycar, posto ocupado pelo up!, não é o hatch de entrada da marca, como o eterno Gol, nem o premium, posição do novo Polo.

O VW Fox já teve sua gama reduzida para duas versões, ambas equipadas com motor 1.6 e bom pacote de opcionais. Rivaliza em preço com versões do Gol e parte do mesmo valor do Polo, causando certa “canibalização”, embora a Volkswagen diga que cada um dos seus hatches atende a públicos-alvo específicos. O preço inicial de Fox e Polo é de R$ 49.990, mas enquanto o irmão premium pode alcançar altíssimos R$ 78 mil, o Fox estaciona em R$ 56.421.

Quanto rende?

Não vou tratar de economia de combustível e, sim, de quanto o modelo representa, em faturamento, para a montadora hoje. O Fox mantém desempenho razoável em vendas, mas já vem sentindo o impacto do Polo. Em 2017, emplacou 3.559 unidades/mês, em média; em 2018, a média caiu para 3 mil/mês, enquanto o Polo tem vendido 5.884 mil unidades/mês.

Fazendo uma conta superficial, em que levei em conta a média entre os preços inicial e final praticados nestes veículos e o volume emplacado, cheguei aos seguintes faturamentos (não se trata de lucro da montadora, por favor):

Fox – 42.716 unidades emplacadas em 2017: R$ 2,272 bilhões
Gol – 73.919 unidades emplacadas em 2017: R$ 3,569 bilhões
Polo – 23.538 unidades emplacadas em 2018 (até abril): R$ 1,638 bilhão

Lançado em novembro do ano passado, o Polo já assumiu o posto de carro mais vendido da Volkswagen e considerando que siga nesta trajetória até o fim do ano, poderá ficar próximo de 70 mil emplacamentos, ultrapassando os R$ 4,8 bilhão em faturamento. Já o Fox, caso siga o ritmo dos primeiros meses do ano, deverá encerrar 2018 com cerca de 38 mil emplacamentos e faturamento abaixo dos R$ 2 bilhões.

É pessoal

Eu tenho um apreço pelo Fox porque ele foi o primeiro carro que eu e meu marido adquirimos depois de casados, um seminovo, 2006, que permanece na família, hoje com meu sogro. Dias atrás tive a oportunidade de dirigi-lo de novo e me lembrei de seus pontos fortes: a motorização e a posição mais alta de direção.

O modelo também foi o responsável pela introdução de uma importante tecnologia no mercado brasileiro: o motor 1.0 Total Flex. Depois, trouxe o primeiro 3-cilindros da Volkswagen, em sua versão Bluemotion, motor que depois equiparia o up!.

Mas, com 15 anos de história, o Fox não sofreu grandes mudanças no projeto e é montado em plataforma antiga, justamente em um momento em que a Volkswagen moderniza toda a sua linha de montagem sob o lema da “Nova VW”.

O modelo é produzido na fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná, de onde saem também o Golf e modelos da parceira Audi. De lá sairá o T-Cross, SUV compacto já anunciado pela Volkswagen e – dizem – uma nova picape da marca. Há de se abrir espaço na linha de montagem.

Um novo Gol já é esperado, mas não se fala em um novo Fox. Quinze anos de trajetória será pouco para um carro como ele? Talvez não. Contrapondo o ditado inicial, fecho meu pensamento citando Fernando Pessoa: “Tudo o que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível”. Será o caso do Fox?

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