A polêmica dos carros customizados

Por Cecília França

No último fim de semana rolou em Londrina (PR) o Motor Show, um grande evento automotivo que atrai, por ser perfil, inúmeros veículos customizados, hot rods e rebaixados. Em conversas com o organizador e com participantes do evento identifiquei uma questão chave que levanta polêmica entre eles: a legalização dos veículos customizados no Brasil.

Os fãs da cultura custom, que, no passado, montavam carros exclusivamente para exposições e encontros, hoje querem colocá-los nas ruas e estradas. Querem que eles dividam espaço com veículos novos e originais. Mas existe uma legislação bastante consistente quanto a isso.

“Nossa legislação combate o carro, e não o condutor. Ela não permite carro rebaixado, adulterado. Nos Estados Unidos o carro é liberado, mas quando você vai para a rua com ele tem que andar na lei, se combate o mau condutor; aqui se combate o carro e se deixa de ter uma economia gigantesca em volta disso”, declara o promotor do evento, Rafael Casagrande.

Além de restringir a customização de veículos, o Código Brasileiro de Trânsito determina o registro de todas as modificações realizadas em órgão competente (Art. 98 e 106 do CBT). A lei permite, por exemplo, transformações de motocicletas em triciclos e de automóveis em buggies ou limusines. Também possibilita aumento da potência em até 10%, mas proíbe a troca do bloco do motor, como expresso na Resolução 292 do Contran. Em seu artigo 8o. a resolução proíbe, ainda, mudanças estéticas.

“Art. 8o Ficam proibidas:

I – A utilização de rodas/pneus que ultrapassem os limites externos dos pára-lamas do veículo;

II – O aumento ou diminuição do diâmetro externo do conjunto pneu/roda;

III – A substituição do chassi ou monobloco de veículo por outro chassi ou monobloco, nos casos de modificação, furto/roubo ou sinistro de veículos, com exceção de sinistros em motocicletas e assemelhados;

IV – A alteração das características originais das molas do veículo, inclusão, exclusão ou modificação de dispositivos da suspensão.”

Em resolução anterior, a 291, também está expressa outra limitação para os fãs da cultura custom: são permitidas “Modificações visuais que não impliquem em semelhança com veículo de outro ano/modelo” em automóveis. Digamos que inibe, e muito, a criatividade dos antigomobilistas.

Rebaixados

A suspensão talvez seja o ponto mais sensível para quem deseja customizar o próprio carro. Muito além do antigomobilismo, os carros rebaixados são objetos de desejo de muitos motoristas.

Justamente esta questão levou à suspensão da Resolução 292 do Contran em agosto de 2013, mas o caso não tinha relação alguma com os carros modificados, e sim, com o grande número de caminhões com a suspensão adulterada de maneira visivelmente insegura, como na foto abaixo.

Peripécias como esta só eram possíveis por contradições na própria resolução. Enquanto o artigo 8o. proibia qualquer interferência no sistema de suspensão, o artigo 6o. da mesma disposição trazia a seguinte redação: “Na troca do sistema de suspensão não será permitida a utilização de sistemas de suspensão com regulagem de altura”. Ué, mas pode ou não pode trocar?

Em março de 2014 a resolução 479 pôs fim às diferentes interpretações e determinou que, em veículos de até 3.500 kg, o sistema de suspensão poderá ser trocado por um fixo ou regulável, respeitando altura mínima superior a 10 cm. Também o conjunto de rodas e pneus não pode tocar em nenhuma parte do veículo durante o esterçamento. Todas as modificações devem ser legalizadas.

É pouco

Mesmo com a nova norma, as amarras que persistem para modificações nos veículos desagradam os antigomobilistas como Roberto Cardinale, de São Paulo. Anualmente, ele e outros 80 colecionadores colocam seus hot rods na estrada rumo a Curitiba, em uma viagem-manifesto chamada de Road Tour. (Apesar do conceito de hot rod ser muito amplo, Cardinale considera qualquer veículo com mecânica atualizada como um deles.)

“Eu acho que muito mais do que você limitar a performance seria preciso você incentivar as pessoas a terem um carro seguro. Não adianta nada ter um carro 100% original se ele tiver um freio ruim, uma direção ruim”, diz ele, quando questionado sobre a lei brasileira.

Para Cardinale, falta entendimento do mercado. “Tem carro rebaixado que tem suspensão super moderna e eficiente, freios e direção idem. Mas quem fez esse tipo de lei não conhece (esse tipo de mercado). Nós ainda somos muito pequenos”, completa, na esperança de que, um dia, alcancemos o patamar de países como EUA e Austrália na cultura custom.


Cecília França. Paranaense, jornalista formada há 12 anos pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Iniciou na cobertura do setor automotivo há quatro anos, no jornal diário Folha de Londrina. Atualmente é freelancer e colunista do Autos Giros.


*A coluna Autos Papos teve seu nome alterado para AutoMobilidade em 08/02/2018

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