As últimas gerações de motoristas

Por Cecília França

O ano é 2050. Lá estou eu, com quase 70 anos, sendo convidada por meu filho a conhecer seu carro novo. Compacto, mas com ares esportivos, ele conta com três sensores na parte de cima que “leem” a rua e os obstáculos à frente. Todas as informações são transmitidas para uma tela multimídia localizada bem diante do motorista, justamente onde deveria estar…? O volante.

Não há volante; não há câmbio; não há pedais. Meu filho aperta um botão e alguns segundos depois o carro entra em movimento sem, no entanto, emitir qualquer ruído – típico dos elétricos. Então eu digo: “Assim fica fácil dirigir”, com um falso ar de desprezo por esta geração que nunca vai cambiar nem fazer baliza com carro duro sem direção hidráulica ou elétrica. Meu filho me corrige: “Assim fica fácil porque eu simplesmente não preciso dirigir”.

Imaginei esta cena após ler extensa reportagem da revista Veja sobre os carros autônomos. A previsão é de que até 2050 estejamos no nível 5 de condução autônoma, quando teremos veículos 100% capazes de “dirigir” sozinhos. Então me ocorreu que o ato de dirigir, algo tão prazeroso para muitos, acabará. Somos as últimas gerações de motoristas.

Na minha geração (dos nascidos em 1980), já não havia a mesma gana por direção da geração anterior, mesmo assim, bastou minha irmã mais velha tirar carteira para que eu a fizesse me ensinar a dirigir, aos 16. Era sinônimo de maturidade, de liberdade, mesmo que você ainda precisasse pedir o carro do pai para dar uns “rolês”.

Em que pé estamos

O ato de entrar em um carro e ser levado por ele ao destino final não configura dirigir – nem para mim nem para o dicionário, que classifica dirigir como “o ato de guiar, conduzir”. No caso dos carros autônomos é a máquina quem conduz. No novo Audi A8 isto já é realidade, em parte. A montadora foi a primeira a anunciar um veículo de produção em série com nível 3 de autonomia, de acordo com escala criada pela Sociedade de Engenharia Automotiva (SAE) – veja tabela abaixo. A Honda projeta atingir esse nível em 2020.

Nesta semana, o Grupo Renault anunciou o desenvolvimento de um sistema autônomo capaz de evitar obstáculos e reforçou seu propósito de estar entre as primeiras montadoras a produzir carros em série com nível 4 de autonomia. Até 2022 a marca promete 15 modelos com diferentes níveis, no âmbito da Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi.

Além das montadoras, as gigantes de tecnologia Apple e Google também estão empenhadas no desenvolvimento de sistemas de condução autônoma, possivelmente para comercializá-los para as montadoras posteriormente. A única montadora que declarou, até o momento (que eu tenha notícia), não ter previsão para iniciar testes de conduçãoo autônoma foi a Porsche, já que, segundo o CEO, Oliver Blume, os clientes da marca querem conduzir seus máquinas por eles próprios.

Quando estará nas ruas

Ainda existe muito a ser discutido sobre carros autônomos antes de eles serem produzidos em série e chegarem às ruas, especialmente no Brasil, onde a malha viária carece de sinalização e condições de rodagem. Será que estaremos prontos em 2050? É uma quebra de paradigma total, uma tecnologia tão disruptiva que fica difícil antecipar muita coisa.

Uma das previsões é de que haja mais compartilhamento de veículos a partir da ascensão da condução autônoma, assim, cairia o número de carros individuais. Ter carro próprio deixaria de ser um sonho? Há quem diga que já não o é para a chamada Geração Y, os millenials. Mas também, ter um carro próprio que você não precisa dirigir é no mínimo estranho para nós. Se ele for um Porsche, então, qual a graça?


Cecília França. Paranaense, jornalista formada há 12 anos pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Iniciou na cobertura do setor automotivo há quatro anos, no jornal diário Folha de Londrina. Atualmente é freelancer e colunista do Autos Giros.


*A coluna Autos Papos teve seu nome alterado para AutoMobilidade em 08/02/2018

Leia mais

Ranking de 2017 mostra disputa acirrada entre SUVs Por Cecília França O ano de 2017 terminou com a vitória do Jeep Compass como SUV mais vendido do País. Em seu primeiro ano cheio de vendas, o modelo nacionalizado desbancou os colegas compactos, empurrou o Honda HR-V para a segunda posição, e tomou do irmão Renegade o posto de veículo mais comercia...
Ranking dos mais vendidos: a ascensão da Jeep e o ... Por Cecília França O ano de 2017 marca a sedimentação da Jeep no mercado nacional. Depois da ascensão com o Renegade, a montadora se firmou de vez com a chegada do irmão maior, o Compass, que ocupa a 11ª posição entre os veículos mais vendidos (autos e comerciais leves) até o momento*. Já foram emp...
O bom momento da Aliança Renault-Nissan no Brasil Por Cecília França Renault e Nissan mantêm uma aliança estratégica desde 1999. No Brasil, a francesa está comemorando 20 anos de presença enquanto a japonesa opera desde os anos 2000. Nestas quase duas décadas em solo tupiniquim, podemos dizer que, em 2018, as duas marcas vivem seu melhor momento. ...
No setor automotivo, santo de casa faz milagre Por Cecília França Marcas têm melhores desempenhos em Estados que sediam suas fábricas A Renault costuma dizer que o Paraná é sua casa no Brasil. Conhecendo a longevidade da relação entre o Estado e a montadora, que completa 20 anos em 2018, entendemos o motivo de tal identificação. E este relac...

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: