Entre o promissor e o frágil

Por Vandré Kramer
vandre.kramer@uol.com.br

Nas últimas semanas, dois anúncios promissores para a indústria automotiva brasileira: o anúncio de mais de R$ 2 bilhões em investimentos para os próximos anos, feitos pela GM, a líder do mercado, e a Renault. Isto reflete a confiança em um mercado que se revela promissor.

Afinal de contas, são mais de 207 milhões de brasileiros, uma frota de veículos que está envelhecendo rapidamente – a idade média no final do ano passado era de 9,25 anos, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) – e que necessita ser reposta ao longo do tempo.

A GM vai investir R$ 1,4 bilhão no Complexo Automotivo de Gravataí, no Rio Grande do Sul, no desenvolvimento de novas tecnologias e em inovação, com o objetivo de produzir novos carros. A Renault irá aplicar R$ 750 milhões, na unidade de São José dos Pinhais (PR), na construção de uma fábrica de injeção de alumínio e na ampliação na produção de motores.

É uma revelação de otimismo, principalmente no longo prazo. Porém no curto e médio prazo ainda há muita cautela. A instabilidade no cenário político contamina o econômico. Investidores dão preferência à estabilidade na hora de investir.

E o que hoje se mostra promissor, amanhã pode não ser. Exemplo clássico é o da Venezuela. Dona de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, teria tudo para ser um dos mercados mais promissores para a indústria automotiva. Mas, a ditadura socialista-chavista, liderada por Nicolas Maduro, faz com que a Venezuela não produza há tempo, um único carro. Fruto de decisões políticas e econômicas que não seguem uma lógica de pensar no futuro.

Por aqui, a cautela domina. O arquivamento do processo contra o presidente Michel Temer pela Câmara, após a liberação de bilhões de reais para emendas parlamentares, ajuda a manter o cenário travado. O que há de crescimento é em função de um 2016 muito ruim. A indústria automobilística produziu, no ano passado, o equivalente a 2004. Vão ser precisos alguns anos para bater o recorde de produção.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) está com as barbas de molho. Vai esperar mais um mês para rever as previsões para este ano. “Precisamos de estabilidade política. Toda notícia contrária a isso gera falta de confiança e consequentemente atraso de investimentos, disse o presidente da entidade, Antônio Carlos Megale, na apresentação dos resultados do segmento em julho.

Até agora, no ano, a produção cresceu 22,4%. Um número que aparenta ser vistoso, mas não é. O licenciamento de veículos cresceu 3,4% em relação a 2016, de acordo com o Denatran. As exportações se expandiram 52% em valores (dólares).

Mas, pelo menos, dois terços são direcionados para a Argentina. Pelo menos, por lá as previsões de crescimento são bem mais otimistas: o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta uma expansão de 2,2%, para este ano, e 2,3%, para 2018. O problema é depender muito de um único mercado.


Vandré Kramer é jornalista, com formação em economia e pós-graduação em mercado financeiro. Trabalhou por mais de 20 anos cobrindo a área econômica para jornais de Santa Catarina (SC).

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