PIB recua aos níveis de 2010; a indústria automotiva, aos de 2004

Por Vandre Kramer

O PIB acumula um tombo de 7,23% nos últimos dois anos, segundo o IBGE. É o pior desempenho da história. Nunca, o Brasil teve dois anos seguidos de contração no principal indicador da economia. A responsabilidade, todo mundo está careca de saber, foram as escolhas erradas da política econômica nos últimos anos. Acompanhando a retração, vieram os juros altos, a inflação acima de 10% – e que felizmente agora estão caindo – e o desemprego crescente, que agora bate na casa dos 13%.A queda colocou a economia brasileira nos níveis de 2010. Mas, para a indústria automotiva, a situação é pior. No ano passado, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), foram produzidos 2,16 milhões de automóveis e comerciais leves. É quase a produção registrada em 2004. Os segmentos que mais sentiram foram o de caminhões, cujo desempenho foi o menor desde 1999, e o de ônibus, que tem os piores indicadores desde 2002.

O resultado da retração na produção refletiu-se na mão de obra empregada pelas montadoras. Segundo dados da entidade empresarial, atualmente trabalham 121,5 mil pessoas nas fábricas, próximo ao verificado em setembro de 2009. Entre janeiro de 2014 e janeiro de 2017, foram fechados 35,8 mil postos de trabalho.

O licenciamento de veículos novos teve o seu pior ano desde 2007. No ano passado, foram cadastradas 2,05 milhões de novas unidades, marcando o quarto ano seguido de queda. O segmento pesado foi o que mais sentiu: foi o menor volume licenciado de caminhões desde 1998. Para os ônibus, o menor desde 1999.

As concessões de crédito para o financiamento de veículos também está em níveis bem baixos. Segundo o Banco Central (BC), nos 12 meses encerrados em janeiro foram concedidos R$ 8,81 bilhões às pessoas jurídicas, 5,26% a menos do que em igual período anterior.  Para as pessoas físicas,  a queda foi um pouco maior: 6,11%, em um total de R$ 72,55 bilhões.

O Brasil, que já chegou a ser o quarto maior mercado mundial para a indústria automobilística, está perdendo posições. No ano passado, segundo a Jato – consultoria internacional especializada no segmento automotivo – foi o nono maior em vendas, ligeiramente à frente do Canadá, um país de 36,3 milhões de habitantes. Entre os 52 mercados pesquisados pela consultoria, o Brasil foi o que teve a maior queda no volume de vendas em 2016: 19,8%.

Apesar de o segmento automotivo apostar na retomada, o cenário no mercado doméstico só deve melhorar a partir do segundo semestre, quando os efeitos da redução da taxa básica de juro (Selic) começar a ser sentida. A produção já ensaia alta, puxada pelas exportações. No primeiro bimestre, as vendas para o exterior atingiram US$ 1,99 bilhão, 46,4% a mais do que no mesmo período de 2016. Já a produção aumentou 28,1%.

Vai demorar para a indústria bater a marca dos 3,71 milhões de unidades fabricadas em 2013. A história mostra que a reação é demorada: após o recorde de produção de carros registrado em 1980, a economia brasileira mergulhou em uma profunda crise fazendo com que os níveis de produção só fossem retomados em 1993.


Vandré Kramer é jornalista, com formação em economia e pós-graduação em mercado financeiro. Trabalhou por mais de 20 anos cobrindo a área econômica para jornais de Santa Catarina (SC).

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